Olá a todos,
Depois de cerca de uma semana e tal sem dar noticias, aqui estou eu. São e salvo. Ainda vivo, e de cabeça à tona, fora de água. Estou em Piraeus, que é o porto de Atenas. Como sempre não tenho tempo suficiente para ir a Atenas. Quem disse que ia viajar e conhecer o mundo devia antes ter dito que vais trabalhar e conhecer os portos.
O trabalho está a correr bem. Estão a gostar de mim, mas é um ambiente de trabalho muito militar. Temos que estar na linha, e quando saímos dela podemos ter a certeza que alguém vai saber e vai gritar connosco. O que vale é que o gritar deles é muito soft… Deviam ter aprendido com algumas pessoas que foram meus patrões em Portugal.
Quer dizer, com que cara é que o tipo com quem eu apanhei uma bebedeira ontem à noite, me dá na cabeça hoje? A sério? Claro que estou sério, e a dizer peço desculpa, não volta a acontecer. Hoje à noite vai-me pagar mais uma rodada de bebidas, por isso não é mau.
A vida a bordo…
A vida a bordo é a coisa mais estranha deste mundo. Vivemos em várias bolhas. Vivemos na bolha do nosso departamento. Somos cerca de 15, e tudo o que se passa entre nós sabe-se por todos nós. Não posso dar um peido sem que toda a gente tape o nariz, estejam ao pé de mim ou não. O mais engraçado é quando estamos a contar a alguém algo que aconteceu ontem à noite e a pessoa nos começa a contradizer, a dizer ‘não, não foi assim que se passou’, e essa pessoa nem sequer estava presente. São nove da manhã, a história que estou a contar aconteceu na noite anterior à meia noite, e esta pessoa a quem estou a contar a história já a ouviu de 3 pessoas diferentes antes de mim.
Portanto os assuntos, as conversas, andam todas à volta do que se passa no departamento, no navio, entre nós. Não falamos de política, por exemplo. O mundo à nossa volta não existe. Podia começar uma guerra que nós nem nos apercebíamos.
A seguir existe a bolha dos nossos amigos, essa bolha é mais larga, e já inclui uma comunidade maior. Isto são as pessoas que estão fora do nosso departamento, com quem conversamos, mas só nos vimos no bar ou nos corredores. Essa bolha é menos claustrofóbica do que a primeira, pois quando estamos a conversar com alguém podemos ter 75% de certeza que essa pessoa ainda não ouviu a história. Claro, nunca podemos ter a certeza, pois ambas as bolhas são concorrentes.
E depois existe o resto do pessoal do navio, cerca de 1000 pessoas, com quem temos pouco ou nenhum contacto, que andam por lá, fazem o navio funcionar, mas que eu ainda não conheci. Eventualmente poderão fazer parte de uma das bolhas das quais eu faço parte, mas por enquanto são corpos estranhos nos corredores.
A vida a bordo é muito militar. Existe uma hierarquia estrita, e regras importantes que devem ser seguidas. As hierarquias são definidas segundo o número de tiras que cada um tem no ombro. Eu tenho meia tira, estou acima de cerca de 70% do navio, mas claro, existem outros 30% acima de mim.
Algumas das regras:
1 – Tenho que fazer a barba 2 vezes por dia. Não posso ter um único pelinho a nascer. Tenho que ter o cabelo cortado, e não posso ter um único cabelo desalinhado e fora de sítio.
2 – Tenho que andar sempre com a plaquinha com o nome na lapela, e o pin da empresa acima deste. O pin da empresa tem que estar exactamente 2 dedos acima da plaquinha.
Se me lembrar de outras digo.
Estou em Piraeus. Vou enviar um email à Susana e beijinhos e abraços para todos.
Diogo























